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RELACIONAMENTO

Eu não consigo escrever pra você

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Eu percebi que nunca escrevi pra você. Aqueles bilhetes espalhados pelo seu quarto não contam. Estou falando de escrever, de verdade. Passar tudo o que eu sinto por você para um pedaço de papel, começar me preocupando com a letra e depois esquecer até as virgulas. Mas o fato é que eu não sentia essa necessidade, até agora. Afinal, tudo o que eu sinto já devia estar explicito na minha cara, em cada gesto, no meu sorriso, meu olhar e cada palavra que sai da minha boca.

Mas a verdade é que nem todas as ligações, as mensagens que você nem chega a ler – por esquecer onde largou o celular – e o fato de isso não me incomodar mais. Todas as vezes que rio de uma piada sem graça que você conta, ou quando só te chamo, impacientemente, de idiota. Aquela vez que você disse que chegava pro almoço, mas chegou na hora da janta e eu não te fiz dormir no sofá. As brigas sem sentindo, as com sentido, as feias, as bobas. Todas as noites que eu, sofrendo de insônia, te acordo para conversar um pouco e depois de longos 5 minutos acabo adormecendo, te fazendo perder o sono à toa. Todas as vezes que briguei por falta de atenção igual a uma criança mimada. E os raros momentos em que eu fui a adulta responsável da relação que te obrigou a olhar pro lado bom da vida e te ajudo a não desistir. Todos os chutes enquanto dormimos apertados na sua cama de solteiro, e quando eu quase te derrubei dela. As minhas danças idiotas para te fazer gargalhar. Todas as vezes que me arrisquei na cozinha por você. Cada “Boa noite“, “Já chegou?“, “Seja positivo“, “Vai dar certo“, “Você almoçou hoje?“, “Eu te amo“.

Tudo isso – e tudo o que ainda falta nessa lista – não chega nem perto de descrever esse sentimento que você causa em mim. Nada disso é suficiente e talvez nunca seja o bastante. Porque quando estou com você eu me sinto em casa. Literalmente. Posso ficar descabelada e usar as suas roupas, que você nem liga, e nada mais me envergonha. Posso aparecer cada dia com o cabelo de uma cor, que você me aceita. Não temos roteiros. Você me fez jogar fora todos os que eu tinha guardado em segurança pro caso de precisar. Mas nós nunca precisamos.

Você enxerga uma versão de mim que ninguém mais parece ser capaz de ver. Acredita em cada sonho meu. Pra você eu sou boa em muitas coisas, capaz de fazer quase tudo, e tudo vai ficar bom e dar certo. Eu queria ter essa confiança em mim mesma também. Eu queira conhecer essa pessoa que você conhece, que mora em mim mas só se mostra pra você. Mas no fundo, eu sei que não preciso. Porque enquanto eu tiver a sua mão para segurar a minha e a sua voz me dizendo que eu sou capaz, então eu serei capaz. De ser e fazer qualquer coisa. Sou imensamente grata.

Eu percebi que nunca escrevi pra você. E esse grande monologo que você acabou de ler ainda não conta.

COMPORTAMENTO

Uma chance de recuperar o tempo perdido

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Querido Diário,

Me desculpa ter te deixado de lado, a vida adulta tem me tomado muito tempo. Eu pensei que seria mais fácil, acho que alguém até tentou me alertar do contrário, mas eu não dei atenção. Estou aqui limpando a sua poeira e espero que ainda exista uma chance de recuperar o tempo perdido, porque eu tenho muita coisa para te contar. Já até escolhi minha melhor caneta, estou caprichando na letra e usando um marca texto roxo para destacar o que for mais importante.

Preciso começar a te atualizar, pois a pessoa que está lhe escrevendo agora é alguém muito diferente da que você um dia você conheceu. Atualmente tenho 22 anos. Isso mesmo, você não entendeu errado, vinte e dois anos. E antes de se questionar “porque uma mulher dessa idade voltou a usar um diário?” É melhor me perguntar porque um dia eu parei de escrever. Bom, o porquê foi a vida e todas as voltas que ela deu. Mas não quero te sobrecarregar com essa história de uma vez só, então vou te contanto os detalhes aos poucos.

Ainda moro com os meus pais, mas não com os dois, cada dia estou na casa de um e até que agora eu prefiro assim. O bairro é o mesmo, os vizinhos continuam sendo estranhos e com péssimos gostos musicais, mas nada que um “bom dia” tímido e fones de ouvido não resolvam. Ah, e agora eu divido meus chocolates e mimos com a Manu, minha irmã materna de três anos que, segundo a minha mãe, consegue ter mais maturidade que eu. Mas é a Manuela que implica primeiro, mãe.

Estou trabalhando em casa, o tão sonhado home office, só que a expectativa e a realidade vivem se estranhando por aqui. Acho que é porque as segundas ferias são sempre mais difíceis. Apesar disso, me sinto orgulhosa em relação as minhas decisões. Finalmente criei coragem e sai de uma situação cômoda que estava me corroendo de dentro pra fora. Tenho sofrido de insônia, e olha que eu diminuí a quantidade de café, mas quando o sono vem eu não consigo controlar, tipo agora. Então até a próxima diário, prometo não mais te abandonar.


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